cachorro molhado

Para matar um grande amor

Jamil Snege*

Jamil Snege (1939-2003)

Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos.

Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.

Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.

Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.

Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...


Jamil Snege nasceu em Curitiba, em 1939. Graduou-se em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência publicitária. Publicou crônicas, quinzenalmente, no jornal Gazeta do Povo. Seus principais livros são “O jardim, a tempestade” (minicontos, 1989), “Como eu se fiz por si mesmo” (memórias, 1994) e “Os verões da grande leitoa branca” (contos, 2000). Morreu em Curitiba, em 2003.

Publicado em 04 de julho de 2003 às 09:03 por zero

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Comentários

    • Me vi ali, no último e desesperado entrelaçar de mãos....
    • por d.
    • 04.Jul.2003 às 14:03 - Permalink - Reportar
    d.
    • valeu!..eh o q tento dizer ha tempos..
    • por mari
    • 05.Jul.2003 às 01:16 - Permalink - Reportar
    mari
    • Cara, como isso é real, nesse exato momento, pra mim.
    • por P. Galvez
    • 05.Jul.2003 às 13:19 - Permalink - Reportar
    P. Galvez
    • Zé, esse texto é pra fazer doer no coração de qualquer um.
    • por Simone Pavin
    • 05.Jul.2003 às 16:53 - Permalink - Reportar
    Simone Pavin
    • putz, Jamil Snege morreu? juro que fiquei sabendo agora. li uma entrevista dele há uns meses atrás, ele cheio de planos e tal. achei um livro de contos dele e gostei pacas. e aí o cara morre. assim? assim, calou-se, desligou-se, foi-se: para onde? para onde as coisas. para onde o tempo? para onde as noites. e esse texto sobre o fim do amor, zero, é bom pra caramba.
    • por beethoven
    • 06.Jul.2003 às 01:03 - Permalink - Reportar
    beethoven
    • o texto é bom, o fim do amor também é. porque sempre abre um novo caminho. quanto ao jamil snege, morreu já tá fazendo uns 2 meses. câncer no pulmão. muito cigarro. e, ao que consta, não desistiu de fumar nem quando estava na reta de chegada.
    • por zero
    • 06.Jul.2003 às 01:51 - Permalink - Reportar
    zero
    • porra, o snege morreu?
      conversei com ele no começo do ano... no cine ritz...
      puxa, estou estarrecido.
    • por grota
    • 06.Jul.2003 às 16:41 - Permalink - Reportar
    grota
    • Que beleza, meu caro Zé. Que beleza e que tristeza. Mas ainda temos a alegria do que o Snege escreveu.
    • por Paulo Briguet
    • 07.Jul.2003 às 21:42 - Permalink - Reportar
    Paulo Briguet
    • Adorei esse texto. Que vontade de chorar.
      Zé gostaria que soubesse o quanto gosto de ler as coisas que vc escreve. Tem razão de ser amigo do Ed. Vcs são d+.
      Beijos da sua mais nova amiga
    • por Angel
    • 08.Jul.2003 às 14:06 - Permalink - Reportar
    Angel
    • fiquei emocionada ao ler esse texto tão doído, tao profundo. lembrei do Jamil que conheci quando tinha 18 anos. era telefonista da Multipla propaganda. Ele redator. Brincava comigo colocando o telefone na lata de lixo... Alguns anos depois ele casou com uma grande amiga minha, a Vera. Linda inteligente, meiga. Perdemos o contato. Hoje prestes a me formar - ainda que tardiamente- em jornalismo, só queria uma coisa: Saber escrever como ele.
      Tania
    • por tania
    • 02.Jun.2005 às 19:44 - Permalink - Reportar
    tania
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