sem direção
Foto: Milton Montenegro
meu bem, adeus, olha lá, sou eu indo embora, é um filme na parede, como é que pode essa projeção assim?, não responda, apenas preste atenção, a minha mão se ergue e eu aceno, é um tchau, você deve conhecer esse gesto e o resto você já sabe, eu caminhando, de costas, de calça jeans, de camiseta hering velha e as omoplatas marcando o tecido, de tênis sujo, um passo, outro passo, e eu meio que corcunda, você conhece o meu jeito de andar, e lá vou eu, sem olhar para trás, pois li na bíblia que a mulher de lot olhou para trás e virou estátua de sal e, juro, não vou olhar para trás, mas se eu cair em tentação e por isso me tornar estátua de sal, venha me lamber, se eu me tornar esta tua lembrança, uma menção na tua memória, saiba que isso só terá ocorrido porque eu fui embora, veja, já estou depois da soleira, depois da porteira, pés 43 fazem andar rápido, e então a rua de terra, e então um mendigo, um argentino malabarista, e todos me dizem oi!, com entusiasmo, e eu, que já perdi mesmo as eleições, respondo com antipatia, oi, nada, tchau, mas você já não escuta os diálogos, porque estou longe dos microfones e a triunfal trilha final em sobe-som cobre qualquer outro ruído e depois da imagem congelada bem no instante da minha silhueta contra o sol, depois vem a ficha técnica, sem direção geral.
Publicado em 18 de setembro de 2006 às 02:14 por zero