neste domingo de chuva
Foto: João Primo dizem que "o destino do amor é sempre a despedida". mas o que dizer, então, do amor não-nascido, do amor incubado, recolhido, aquele que não se concretiza? não há despedida se nem houve chegada! como ir embora, sem ter vindo? nem sempre, portanto, o destino do amor é a despedida. às vezes, ele morre sem nascer. pensando isso, pensei também que, se eu tivesse um amor a esquecer, eu juro que sofreria tanto, mas tanto, que, depois de chorar mais que o céu no temporal da tarde de hoje, escreveria as seguintes palavras:ainda que no meu leste me reste este pensamento recorrente, eu juro que já te deixei há muito tempo, em algum canto do chão, junto das lascas de unhas roídas, das cacas tiradas do nariz, dos farelos de pão morto edas letras deletadas. eu juro que, embora nas ocasiões mais sem propósito, teu nome brote do nada na minha cabeça, é só um eco antigo. é como as unhas que ainda crescem por um tempo depois que já se é defunto. até mesmo porque eu já esqueci você.
mas eu estou na entressafra e não tenho amor a esquecer. mas é sempre bom ter reservado um jeito de chorar!
Publicado em 20 de novembro de 2006 às 00:05 por zero